Ser fã é apoiar o artista. Mas até onde vai esse apoio?
Ser fã é uma relação meio estranha quando a gente para para pensar. Você conhece músicas que aquela pessoa escreveu, conhece entrevistas, reconhece uma risada em dois segundos e sabe histórias da carreira.
Talvez tenha chorado com alguma coisa que ela disse justamente quando você precisava ouvir aquilo. E, ainda assim… você não conhece aquela pessoa.
Parece óbvio. Até o dia em que ela faz alguma coisa que você jamais faria.
Foi nisso que pensei depois da repercussão envolvendo RM e J-Hope, do BTS, e a passagem dos dois pelo show conjunto de Usher e Chris Brown em Toronto.
E antes que isso vire uma guerra de fandom: não estou aqui para convencer ninguém a gostar de Chris Brown. Também não estou aqui para dizer que uma fã não poderia ter ficado decepcionada.
Minha pergunta é outra:
Quando admiramos alguém, até onde vai o nosso direito de esperar que essa pessoa faça escolhas compatíveis com os nossos valores?
Porque talvez ser fã também envolva descobrir uma coisa bastante desconfortável: seu idol pode pensar diferente de você.
O que aconteceu?
RM e J-Hope estiveram em Toronto, no Canadá, e acompanharam uma apresentação da turnê conjunta de Usher e Chris Brown. J-Hope compartilhou registros da experiência, e os integrantes também apareceram em conteúdos relacionados aos bastidores do show.
A presença dos dois gerou discussão entre fãs, especialmente por causa do histórico público de Chris Brown. No episódio mais conhecido desse histórico, em 2009, Brown se declarou culpado por agressão contra Rihanna.
E aí começaram as perguntas.
Ir significa apoiar? E, se significa, apoiar o quê? O trabalho? A carreira? A pessoa? As escolhas pessoais? Os valores? Tudo junto?
Porque usamos a palavra “apoio” para coisas muito diferentes.
E talvez seja aí que parte da confusão comece.
Os fatos são relativamente simples. O significado que damos a eles é que ficou complicado.
[IMAGEM SUGERIDA: RM e J-Hope / registro relacionado ao evento, somente se houver imagem licenciada ou permitida para uso editorial.]
Apoiar a arte não é colocar a mão no fogo pelo artista
Eu sou fã de BTS. Isso significa que acompanho o trabalho deles, gosto das músicas, admiro partes da trajetória e tenho minhas próprias razões para continuar aqui.
Não significa:
“Atesto oficialmente que estes sete homens tomarão decisões com as quais concordarei pelo resto da vida.”
😂
Eu não faria isso nem por gente que conheço pessoalmente. Imagine por sete homens adultos que vivem do outro lado do planeta.
Artistas também têm artistas que admiram. Possuem referências, cresceram ouvindo músicas, assistindo a performances e sendo influenciados por outras pessoas.
E algumas dessas referências podem ser pessoas que eu jamais escolheria como referência para mim.
Isso automaticamente me diz tudo sobre os valores pessoais deles? Eu não acho.
Da mesma forma, gostar do trabalho de alguém não me obriga a defendê-lo como pessoa. Admirar a obra, admirar a pessoa e concordar com as escolhas dela são coisas diferentes.
Às vezes elas se encontram. Às vezes não.
“Mas eles foram ao show. Isso é apoio.”
Em algum nível, sim.
Existe consumo, audiência e visibilidade. Não precisamos fingir que consumir arte é uma ação completamente neutra.
Mas daí para concluir que “você consumiu essa arte, portanto endossa moralmente a pessoa inteira” existe um salto. E não sei se estou disposta a fazê-lo.
Pensa nas pessoas ao seu redor. No seu trabalho talvez tenha gente profundamente religiosa, gente que bebe até cair, gente que aposta, gente que trai e gente com opiniões que fazem você pensar: meu Deus, como vim parar nesta mesa?
Enquanto você está solteira, sem religião e perfeitamente satisfeita vivendo entocada em casa com seus dramas. 😂
Conviver com essas pessoas significa compartilhar os valores delas? Não.
“Mas trabalhar é obrigação. Ir ao show é escolha.”
Concordo. Então vamos trocar o exemplo.
Você foi ao aniversário daquela colega. Conversou, tirou foto, talvez até tenha postado. Agora você endossa todas as escolhas que ela já fez na vida?
Também não.
Estar próximo não é automaticamente concordar. Admirar não é absolver. E consumir uma obra não significa necessariamente assinar embaixo da biografia inteira de quem a produziu.
“Então eles não deveriam ter mostrado”
Essa foi uma das partes da discussão que mais me fez pensar.
Porque uma coisa é dizer:
“Eu acho que eles não deveriam ter ido.”
Outra é:
“Eles poderiam ter ido, mas, sendo famosos, não deveriam ter mostrado.”
E aí minha cabeça imediatamente fez uma pergunta:
Se eles tivessem ido exatamente ao mesmo show e simplesmente ninguém soubesse, seria melhor?
Vamos imaginar. Eles vão, assistem, gostam, voltam para casa. Nenhuma publicação. Nenhuma foto circula. Nenhuma polêmica.
Agora imagine a mesma escolha tornando-se pública.
A ação original é a mesma.
Então qual é exatamente o problema: ter feito ou termos visto?
Só que publicar também tem impacto
Aqui existe uma nuance importante.
RM e J-Hope possuem uma audiência gigantesca. Uma publicação deles não tem o mesmo alcance que a minha.
Se eu posto alguma coisa…
bom, oi, mãe. 😂
Então discutir o impacto de tornar uma associação pública é válido. Uma fã pode olhar para aqueles registros e sentir: “Isso me decepcionou profundamente.”
Esse sentimento existe e não precisa ser ridicularizado.
O que ele não faz é nos dar acesso automático à intenção de RM ou J-Hope.
Eu não posso afirmar: “Eles fizeram isso porque concordam com Chris Brown.”
Da mesma maneira que não quero fazer o movimento contrário e afirmar: “Para eles era só música.”
Também não sei.
Posso avaliar aquilo que fizeram. Posso decidir o que aquilo significa para mim. Mas preciso tomar cuidado para não transformar minha interpretação na intenção deles.
Talvez esconder criasse outro problema
É aqui que a discussão fica interessante para mim.
Existe algo contraditório em desejar que idols sejam “mais humanos”, mas ao mesmo tempo esperar que aprendam quais partes da própria vida precisam esconder para preservar a imagem que construímos deles.
Porque qual seria o resultado?
Eles continuariam fazendo escolhas das quais parte do fandom discorda. Só aprenderiam a não mostrar.
E então teríamos idols melhores?
Ou apenas idols melhores em gerenciamento de imagem?
Talvez a transparência ocasionalmente nos mostre justamente aquilo que não queríamos descobrir: eles não são exatamente como imaginávamos.
“Mas eles são pessoas públicas”
São. E isso traz responsabilidade sobre alcance e influência.
Mas será que traz também a obrigação de antecipar todas as interpretações morais possíveis sobre cada escolha pessoal?
Foi a um show: posicionamento. Usou determinada marca: posicionamento. Foi fotografado com determinado artista: posicionamento. Ouviu determinada música: posicionamento.
Em algum momento, o artista deixa de viver e começa a administrar permanentemente as interpretações que milhões de desconhecidos podem produzir sobre sua vida.
E talvez seja exatamente aqui que eu estabeleça meu limite como fã:
Eu posso observar a coerência entre aquilo que um artista diz publicamente e aquilo que faz. Mas isso não significa que ele precise tomar todas as decisões que eu tomaria.
São coisas diferentes.
Ser mulher não exige uma reação única
Esse ponto ficou ainda mais importante para mim acompanhando as discussões sobre o caso.
Muitas mulheres olharam para o histórico de Chris Brown e sentiram desconforto, raiva ou decepção ao ver artistas que admiram naquele show. Eu consigo entender isso.
O que me incomoda é transformar essa reação em uma espécie de teste de consciência feminina, como se conhecer o mesmo histórico necessariamente tivesse que produzir a mesma conclusão em todas nós.
Mulheres não são um bloco único. Temos histórias diferentes, limites diferentes, relações diferentes com arte e formas diferentes de interpretar consumo.
Podemos inclusive compartilhar os mesmos valores e discordar sobre como aplicá-los a uma situação específica.
Discordar de outra mulher não me torna automaticamente menos consciente das questões que afetam mulheres. E concordar com ela também não me torna automaticamente mais consciente.
Precisamos conseguir conversar antes de distribuir certificados de boa mulher.
Humanizar nossos idols talvez seja mais difícil do que parece
É muito comum dizer:
“Idols são seres humanos, não deuses.”
Eu concordo.
Só que existe uma consequência nessa frase da qual talvez a gente não goste tanto.
Humanizar alguém não significa apenas aceitar que “ele pode errar”. Porque isso ainda pode esconder uma expectativa:
ele erra → nós apontamos → ele aprende → pede desculpas → volta a corresponder ao que esperamos.
Talvez humanizar também signifique aceitar:
Ele pode fazer uma escolha da qual eu discordo e nem sequer considerar aquilo um erro.
Aí complica.
Porque agora não temos um idol imperfeito esperando nossa correção. Temos um adulto com autonomia.
E autonomia inclui a possibilidade de discordar de mim.
Desde quando o crescimento moral de um idol virou responsabilidade do fandom?
Existe uma diferença entre criticar alguém e acreditar que precisamos educá-lo para que ele se torne a pessoa que esperamos.
Eu posso olhar para Namjoon e pensar: “Achei essa escolha péssima.”
Mas quem sou eu na vida dele?
Fã.
Não mãe, amiga, terapeuta ou conselheira moral. Fã.
E isso não diminui a relação emocional que a arte pode criar. Só coloca essa relação no lugar que ela realmente ocupa.
Talvez estabelecer limites saudáveis no fandom também seja perceber que o desenvolvimento moral daquele homem não é minha responsabilidade.
Minha responsabilidade é decidir o que eu faço diante das escolhas dele.
E se um dia meu idol ultrapassar meu limite?
Nada do que escrevi significa: “continue apoiando independentemente do que acontecer.”
Muito pelo contrário.
Todos nós temos limites. Talvez algum dia um artista que admiro faça alguma coisa incompatível com aquilo que considero aceitável.
E talvez eu vá embora.
Isso também é autonomia.
Eu não preciso colocar a mão no fogo por BTS.
Aliás… não coloco a mão no fogo nem por mim mesma.
Vai que amanhã eu faço uma besteira. 😂
Posso amar profundamente uma obra sem entregar ao artista um cheque moral em branco.
Meu idol também tem idols
Antes de serem BTS, eles também eram garotos ouvindo música. Foram influenciados por artistas, construíram referências e admiraram performances.
E algumas dessas referências podem ser pessoas que eu não escolheria para mim.
Isso não precisa ser confortável. Mas também não deveria ser tão surpreendente.
Porque o meu gosto não determina o deles.
Meus valores não são automaticamente os deles.
E talvez eu tenha dado muita sorte quando ambos coincidiram em alguma coisa.
Talvez ser fã seja menos sobre concordar e mais sobre escolher
Quanto mais penso nessa polêmica, menos interessada fico em responder: RM e J-Hope estavam certos ou errados?
Cada fã provavelmente vai chegar à própria conclusão.
A pergunta que ficou para mim é outra:
Qual é o contrato que imaginamos ter assinado quando nos tornamos fãs de alguém?
Porque eu assinei — metaforicamente — para acompanhar uma obra, me divertir, me emocionar, encontrar pessoas e cantar músicas em um idioma que um dia eu nem entendia.
Não assinei para concordar com todas as decisões de sete homens adultos.
E eles também não assinaram um contrato prometendo viver de acordo com aquilo que eu considero certo.
Talvez a relação fique mais honesta quando entendemos isso.
Ser fã não é passar pano. Mas também não é criar alguém.
Existe um espaço enorme entre “meu idol nunca faz nada errado” e “meu idol precisa viver segundo aquilo que eu considero correto”.
É nesse espaço que eu quero ficar.
Posso admirar, questionar, discordar, continuar ou ir embora.
Porque talvez uma relação mais saudável com um artista não seja aquela em que defendemos tudo o que ele faz. Mas também não seja aquela em que transformamos admiração em autoridade sobre a vida dele.
No final, minha conclusão é bem mais simples:
Ele não precisa da minha permissão para fazer uma escolha. E eu não preciso da permissão dele — nem de outra fã — para decidir se continuo aqui depois dela.
Talvez seja exatamente aí que termine o apoio de fã e comece o limite pessoal.
E para você?
É possível admirar profundamente um artista e ainda discordar das escolhas dele?
E talvez a pergunta mais difícil:
Quando um idol faz alguma coisa que você jamais faria, você sente que ele precisa mudar — ou entende que chegou a hora de decidir qual é o seu próprio limite?
Conta nos comentários. Quero saber onde termina o apoio de fã e começa o seu limite pessoal.

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